De início, toda aquela luz e música me desorientaram. Sem contar os gritos. Muita informação de uma só vez. Tudo muito colorido, barulhento e cheio. Estava começando a questionar minha sanidade. Por que eu vim mesmo?
-Vamos, Laila! –Ty me puxou pelo pulso em direção à uma cabine, onde se lia "BILHETERIA" em uma letra vermelha e cheia de curvas. Ela pediu ingressos e, assim que pegou o troco, voltou a me puxar, correndo, para a enorme fila da roda gigante. Uma valsa francesa ecoava pelos alto-falantes.
Ty estava agitada, ansiosa. Júpiter havia convidado-a para ir ao parque e, como Sofia gostava dela há tempos, ela não hesitou ao aceitar. Mas eu tenho medo, por ela e por mim. Júpiter é o típico garoto popular e babaca dos filmes. Lindo, porém perigoso. E, convenhamos, Ty e eu não somos nem um pouco do tipo das garotas com quem ele fica.
-Ty, eu não tenho certeza disso... –Falei pela trigésima terceira vez, desde que chegamos ali. Eu não gosto de rodas gigantes. Muito menos quando eu teria que ficar a alguns bancos de distância e sozinha, para caso corra alguma emergência (como se eu pudesse resolver qualquer coisa).
-Por favor, Laila! –Ela disse, fazendo carinha de Gato de Botas e me abraçando. Neguei com a cabeça.
Sinceramente, eu não consigo entender: por que garotas como a Ty (inteligentes, legais e bonitas), se apaixonam por garotos como Júpiter (burro, galinha, bonito, legal –com quem é popular, imbecil... É. Acho que já deu, né?) Sério! Tá, o garoto parece ser legal e até que dá pro gasto. Mas ele não é nenhum Ian Somerhalder.
-Oi, meninas. –Quase ao mesmo tempo, eu e Ty nos viramos na direção da voz. (Que era tão linda quanto à do Ian.) Júpiter nos cumprimentou com dois beijos no rosto e nos apresentou seu amigo. –Ty, Laila, esse é o Aaron.
Aaron era tímido. O que era incrivelmente estranho, porque ele estava com O Júpiter. Faltavam apenas três pessoas na nossa frente, na fil. Júpiter passo o braço pela cintura de Ty e os dois ficaram de costas para nós, nos deixando em um silêncio constrangedor e sem fim. Bom, é nisso que dá quando deixam duas pessoas tímidas sozinhas. Era ele olhando para os sapatos e eu para as pessoas que estavam paradas no topo da roda. Até que alguém resolveu dizer algo. E esse alguém não foi nenhum dos dois.
-Os ingressos, por favor. –Um homem, com um bigode colonial e uniformede guarda real, estendeu a mão, esperando. Comecei a procurar os benditos ingressos, mas Aaron foi mais rápido e os entregou ao homem.
-Aqui. –Foi a primeira vez que ouvi a voz dele. Pessoalmente. De repente, entendi por que ele e Júpiter eram amigos.
-Obrigada. –Sussurrei. Ele respondeu com um sorriso tão tímido quanto o dono. Subimos os degraus e senti que ele ficou meio receoso. –O que foi?
-Nada. –Ele se sentou e eu fiz o mesmo.
-Divirtam-se! –O homem do bigode e do uniforme sorriu e arriou a barra de segurança. Aaron a agarrou com força. Ele tinha medo de altura? Sorri para ele, em uma tentativa falha de acalmá-lo. Ao contrário do efeito desejado, ele arregalou os olhos e respirou fundo, porém rápido demais.
-Ei, calma! –Segurei uma de suas mãos e ele a apertou. –Tudo bem, se você quiser descer... Nós podemos ir a outro...
-Não. –Ele olhou diretamente para mim. –Só converse comigo, está bem? –Eu ascenti, me virando um pouco para encará-lo. E não foi nada fácil. Aaron era bonito. Muito. Isso já dificultava qualquer coisa. Mas, adicione olhos tão azuis, porém como gelo. Simplesmente era impossível olhar.
-Ahm... Então, você é da rádio, não é? –Falei, quando a roda começou a girar. Era de lá que eu reconhecia a voz de Aaron.
-É. –Ele sorriu. Parecia estar menos nervoso. Até que a roda deu um solavanco e parou.
-Tudo bem, é só para outras pessoas entrarem. –Acalmei-o. –Então, me conte mais. Como você entrou?
-Olha, Laila, eu tenho que te contar uma coisa. –Foi aí que eu percebi que ele não estava apreensivo por causa da altura. –E é sobre Júpiter.
-É tudo uma piada, não é? –Me referi ao fato de Júpiter ter chamado Ty para sair. Ele olhou para os pés, envergonhado.
-Foi uma aposta. Ele ia chamar a Ty para sair e eu ficaria com você. –Ele me encarou e não consegui ler sua expressão. –A piada não é com a Ty, Laila. É com você.
Engoli em seco, quando a roda parou no ponto mais alto. Pude ouvir as risadas de Ty e Júpiter, e de outras pessoas que também estavam na roda. De repente, as luzes do parque se apagaram, e tudo ficou quieto. Nenhum pio, nenhuma risada, nenhuma criança assustada chamando pela mãe.
Sinceramente, eu não consigo entender. Por que eu? Ninguém nem sentiria a minha falta. Só a Ty. Então, por que pregar uma peça em alguém invisível? Por quê? Por que o parque? Eu não gosto de lugares cheios, nem dessas luzes e nem dos palhaços. Palhaços.
Tão subitamente quanto como apagaram, as luzes acenderam. Os brinquedos voltaram a funcionar, os risos e gritos voltaram. Como se nada tivesse acontecido. Estava prestes a respirar fundo, quando vi um cabelo vermelho ao meu lado.
Não era um cabelo ruivo. Ou pintado de vermelho. Era uma peruca. Uma peruca de palhaço. Sem controlar meus movimentos, me virei para o lado, só para confirmar o que eu já temia: Aaron já não estava mais ao meu lado. No lugar dele, um palhaço horrendo gargalhava e se balançava, balançando todo o banco com ele.
Me agarrei a trava de segurança e gritei o mais alto que pude. Por que os seres humanos eram tão cruéis? Por que fazer isso? O que eles ganhariam? Boas risadas no futuro? Mas duvido que contariam sobre mim a seus filhos.
Olhei para o banco de trás, onde Júpiter e Ty estavam. Eles riam, apontando para mim. Ty estava rindo de mim. Mas ela sabia!
O pavor era tanto que eu não chorava, nem gritava, nem reagia mais. Eu realmente confiava nela. E realmente acreditava que Aaron era um cara legal.
O palhaço, ou, pior, Aaron, se balançou mais forte, fazendo o banco ficar a noventa graus com o chão. Eu não reagia. Eu não estava mais agarrada à barra. E, de repente, eu voei. E me senti uma bailarina. Mas eu não era uma pena, e logo estava indo de encontro ao chão.
As risadas e gritos de alegria (alguns de susto) deram lugar à correria e gritos de pavor. Eu não entendia, por que o ser humano é tão medroso e, ainda assim, cisma em colocar medo nos outros.
O chão chegou mais rápido do que eu pensava, porém, não houve dor. Mas, antes das luzes acenderem e dos aplausos virem e das cortinas se fecharem, pude ouvi-los.
-Laila? Laila. Laila! –Ty gritava, desesperada. –Aaron, o que você fez?!
-Era só pra dar um susto nela, cara! –Júpiter completou.
-O que a gente faz agora? –Aaron perguntou, sério demais.
-Laila, me desculpe! –Senti mãos geladas, ao ouvir o sussurro de Ty próximo ao meu ouvido. Então tudo escureceu.
Como no cinema, as luzes se acenderam, e uma música começou a tocar. De início, toda aquela luz e música me desorientaram. Sem contar os gritos. Muita informação de uma só vez. Tudo muito colorido, barulhento e cheio. Estava começando a questionar minha sanidade.
Sabe o que eu não entendo? Por que o ser humano sempre volta ao ponto de partida?


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