quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Formato mínimo

Ele levantou da cama. O rosto coberto de uma camada fina de suor. Sentou-se à beirada e apanhou sua camisa no chão. Pôs-se de pé. Ela, deitada, conseguiu ver uma parte de sua bunda branca se remexer conforme seus passos errantes. A garota apanhou seus óculos, mas já era tarde e o pano da cueca já cobria as nádegas do seu amante. Ela olhou com ternura para o homem com quem acabara de se relacionar. Lembrou-se de momentos antes quando tinham conversado. Ele tinha sido tão cortês. Tantas palavras bonitas foram ditas. Ninguém nunca dissera tantas palavras bonitas.
‒ Você já vai embora? ‒ Ela perguntou, cobrindo-se com o lençol dos pés até um pouco acima do seio.
‒ Sim. Eu preciso ir, senão amanhã vou me atrasar para uma reunião importante. ‒ Ele disse, sem olhá-la nos olhos. De repente, suas palavras soavam mais feias e sujas para ela.
‒ Mas eu pensei que você e eu pudéssemos... Sei lá. Conversar um pouco?
Ele virou o rosto. Havia tristeza em seus olhos. Arrependimento? Timidez? Ela baixou os olhos e ele bufou em desistência. Sentou-se do lado dela e tomou suas mãos. Com delicadeza, ele olhou para os dedos que o haviam arranhado há poucos minutos. Dedos finos e pequenos. Ele sentiu arder um arranhão nas suas costas. A marca de uma noite de prazer.
‒ Eu não sou esse tipo de gente. Eu lamento. Você merece alguém para conversar depois do sexo. Mas eu não posso fazer isso. ‒ Ele disse, e então se levantou e vestiu a calça.
‒ Isso não tem nada a ver com a tal reunião não é? Não é por causa do seu trabalho. Me conta essa história, por favor. Acho que eu tenho o direito de saber. ‒ Pediu ela, com o mesmo olhar por cima dos óculos que o havia conquistado na penumbra do bar.
‒ Eu a amava. Eu disse isso para ela. Levei flores, gritei no meio da rua. Eu fiz tudo o que eu podia para falar para ela que eu a amava.‒ Ele começou a dizer. Olhou então para os olhos da sua amante. Ela escutava com atenção. ‒ Então um dia ela me disse que não tinha como acreditar em mim. Ela me disse que jamais seria capaz de retribuir o meu amor. Disse que não ia arriscar viver ao meu lado, sabendo que eu poderia machucá-la.
A garota olhou para o homem. Suas palavras soavam bonitas como de costume. Ele tinha vontade de chorar. Ela percebeu, é claro. As mãos que outrora arranharam, agora acariciavam uma cabeça repleta de fios. Ele virou o rosto e sentiu que ela entendia. Tomou uma de suas mãos e nela, deu um beijo.
‒ Eu não posso amar ninguém mais. Não como eu a amei. Eu prometi a mim mesmo que só aceitaria o amor em seu formato mínimo. Noites adoráveis como a que tive hoje ao seu lado. Nada mais. ‒ Ele disse.
‒ E se por acaso eu quiser outra noite adorável?
‒ Então vai ter que procurar outra pessoa. Eu só poderia lhe satisfazer uma vez.
‒ Não é verdade. Volte para cama e eu vou lhe mostrar. Me dê mais uma chance e não vai precisar catar garotas em bares. Só porque ela não o quis, não quer dizer que eu também serei assim. Uma chance é o mínimo que você pode me oferecer.
‒ ...

‒ Pode ir tirando a calça.

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