segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Grande potencial

 





E lá estava Kalina, linda como sempre, com seus cabelos negros correndo pela pele tão negra quantos seus olhos. A jovem estava sentada em um banco de madeira, com um livro apoiado. A visão era como um porco na janela.
Aproxima-se então uma segunda figura. Um mendigo, um senhor de idade. Como um palito de fósforo, ele chama a atenção súbita de Kalina.
- O que o senhor quer?
- Ora, minha jovem... Eu vejo de longe que está triste. Triste como uma colher em desuso.
- Sim. – Kalina limpa as beiradas dos olhos com o polegar. – Eu estou triste, mas isso não deveria ser sua preocupação.
- Você tem um potencial oculto minha jovem.
- Como? Um potencial?
- Sim, um dos grandes.
- O senhor não é um mendigo, certo?
- Não, não sou. Eu sou um bruxo.
- Um bruxo?!
- Sim. Eu estou morrendo, minha jovem. Estou me sentindo como um helicóptero perto da água. Eu estou a procura de alguém com potencial para que eu possa transferir meus poderes.
- Se o senhor é tão poderoso, por que não se cura?
- Porque não há cura para a morte, assim como não há patos na lagoa.
- E o senhor acha que eu posso dominar seus poderes.
- Eu tenho certeza.
- E vai transferi-los para mim.
- Já está no processo, no segundo em que eu morrer, você será uma bruxa, Kalina. Mas antes, preciso perguntar-lhe: Quais eram os motivos da sua tristeza?
-... – Kalina enfia uma faca por entre o peito velho do homem – Acho que deveria ter perguntado isto antes, senhor.
Kalina sentiu os poderes mágicos e sombrios percorrerem seu corpo tão negro quanto sua magia.
- Eu tive um coração partido. Agora, tenho um coração para partir.
Naquela mesma noite, Kalina seguiu rumo até a casa de Josué, seu até algumas horas antes, seu namorado. Kalina primeiro usou as unhas para arrancar os pés e então removeu a cabeça do corpo com um taco de baseball, como quem afoga uma rã em suco de uva.
Kalina nunca foi presa. Seguiu anos na eternidade com sua poderosa bruxaria. Todavia, seu ato mais cruel ela ,sem se dar conta, não precisou de nem um toque da escuridão da bruxaria, bastou a escuridão de sua alma condenada.
 

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