Victor andava
silenciosamente pelas ruas. A cidade já dormia há um bom tempo. As luzes
apagadas de quase todos os lugares davam espaço para uma escuridão densa.
Muitos postes e semáforos estavam quebrados. Era difícil enxergar as coisas com
toda a clareza. No lugar das coisas que estavam na rua, só se podia enxergar
formatos enevoados, silhuetas indefinidas que apontavam a presença de alguma
construção, mas enganavam os olhos quanto ao seu formato exato.
Faça a experiência. De
noite, desligue as luzes do quarto, todas elas. Acostume seus olhos a escuridão
e então tente focalizar a sua cama ou o seu armário. É disso que estou falando.
Vez ou outra, pode ser que você veja um inseto caminhando sobre o seu lençol,
mas é bem mais provável que seja apenas o contorno tentando se definir na sua
visão.
É muito fácil dizer que
não tem medo de escuro. Victor dizia isso pelo menos três vezes ao dia. O que pode acontecer de pior? Ele
pensava. Não é fácil admitir que está com medo, não até que o medo se
concretize na sua frente. Com um formato bem definido e uma luz azul e
brilhante. Um fantasma. Uma mulher. Victor olhou nos seus olhos vazios e tentou
descobrir se era verdade o que enxergava. Será
apenas mais uma ilusão da minha cabeça? Como um inseto que caminha nos lençóis?
Não. Ela era real. Tão real quanto ele. Tão real quanto eu e você.
‒ Boa noite. ‒ Disse
Victor tentando parecer educado. Será que as regras de etiqueta se aplicam a
mortos? Ele continuou olhando para os olhos dela. Assustada, seus lábios
congelados tremiam na menção de dizer alguma coisa para o garoto vivo.
‒ Socorro. ‒ Ela disse
afinal. Victor entendeu que não precisava ter medo. A garota que flutuava a sua
frente estava ainda mais apavorada. O que poderia dar mais medo do que a morte?
Somente ela poderia responder essa pergunta.
‒ Calma, você não
precisa se assustar. Está vendo? ‒ Ele apontou para todos os lados. ‒ Estamos
só eu e você aqui. Ninguém lhe fará nenhum mal. Deixe-me te ajudar. Diga-me
qual o problema.
‒ Eu... eu não sei. ‒
Ela disse, voltando a tremer como se estivesse com muito frio. Talvez fantasmas
sintam frio afinal.
‒ Você não precisa se
assustar. Vamos conversar e tudo ficará bem, ok? ‒ Ele disse. A fantasma
balançou a cabeça em sinal de concordância. ‒ O meu nome é Victor. Qual o seu?
‒ M... m... Michelle.
‒ É um lindo nome,
Michelle. Você gosta de música?
Novamente, ela acenou
em concordância, sem miar uma palavra em resposta. Victor pegou o seu telefone
e colocou alguma música da sua playlist. Uma música que fosse possível dançar.
Então tentou tocar a mão dela. Seus dedos passaram pelos dela sem que fosse
possível o toque. Ela se assustou. Virou de costas e foi voando depressa.
‒ Michelle, espere.
Deixe-me te ajudar.
‒ Você não pode ajudar. Ninguém pode.
Então ela desapareceu em direção a lua. Sozinha e sem consolo. Victor olhou para todos os lados e ainda estava só. Continuou andando em frente, sem saber se tinha delirado. Sem saber se algo daquilo era real.
Talvez tenha sido apenas um sonho.

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