quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Um inseto pela noite escura

Victor andava silenciosamente pelas ruas. A cidade já dormia há um bom tempo. As luzes apagadas de quase todos os lugares davam espaço para uma escuridão densa. Muitos postes e semáforos estavam quebrados. Era difícil enxergar as coisas com toda a clareza. No lugar das coisas que estavam na rua, só se podia enxergar formatos enevoados, silhuetas indefinidas que apontavam a presença de alguma construção, mas enganavam os olhos quanto ao seu formato exato.

Faça a experiência. De noite, desligue as luzes do quarto, todas elas. Acostume seus olhos a escuridão e então tente focalizar a sua cama ou o seu armário. É disso que estou falando. Vez ou outra, pode ser que você veja um inseto caminhando sobre o seu lençol, mas é bem mais provável que seja apenas o contorno tentando se definir na sua visão.

É muito fácil dizer que não tem medo de escuro. Victor dizia isso pelo menos três vezes ao dia. O que pode acontecer de pior? Ele pensava. Não é fácil admitir que está com medo, não até que o medo se concretize na sua frente. Com um formato bem definido e uma luz azul e brilhante. Um fantasma. Uma mulher. Victor olhou nos seus olhos vazios e tentou descobrir se era verdade o que enxergava. Será apenas mais uma ilusão da minha cabeça? Como um inseto que caminha nos lençóis? Não. Ela era real. Tão real quanto ele. Tão real quanto eu e você.

‒ Boa noite. ‒ Disse Victor tentando parecer educado. Será que as regras de etiqueta se aplicam a mortos? Ele continuou olhando para os olhos dela. Assustada, seus lábios congelados tremiam na menção de dizer alguma coisa para o garoto vivo.

‒ Socorro. ‒ Ela disse afinal. Victor entendeu que não precisava ter medo. A garota que flutuava a sua frente estava ainda mais apavorada. O que poderia dar mais medo do que a morte? Somente ela poderia responder essa pergunta.

‒ Calma, você não precisa se assustar. Está vendo? ‒ Ele apontou para todos os lados. ‒ Estamos só eu e você aqui. Ninguém lhe fará nenhum mal. Deixe-me te ajudar. Diga-me qual o problema.

‒ Eu... eu não sei. ‒ Ela disse, voltando a tremer como se estivesse com muito frio. Talvez fantasmas sintam frio afinal.

‒ Você não precisa se assustar. Vamos conversar e tudo ficará bem, ok? ‒ Ele disse. A fantasma balançou a cabeça em sinal de concordância. ‒ O meu nome é Victor. Qual o seu?
‒ M... m... Michelle.

‒ É um lindo nome, Michelle. Você gosta de música?

Novamente, ela acenou em concordância, sem miar uma palavra em resposta. Victor pegou o seu telefone e colocou alguma música da sua playlist. Uma música que fosse possível dançar. Então tentou tocar a mão dela. Seus dedos passaram pelos dela sem que fosse possível o toque. Ela se assustou. Virou de costas e foi voando depressa.

‒ Michelle, espere. Deixe-me te ajudar.

‒ Você não pode ajudar. Ninguém pode.

Então ela desapareceu em direção a lua. Sozinha e sem consolo. Victor olhou para todos os lados e ainda estava só. Continuou andando em frente, sem saber se tinha delirado. Sem saber se algo daquilo era real.

Talvez tenha sido apenas um sonho.


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