A vida é mais
complicada do que parece. A gente simplifica. Acredite, a gente simplifica. Se
eu te disser que o mundo saiu do Big Bang, ou se eu disser que Deus criou, tudo
isso ainda é mais simples do que dizer que o mundo surgiu do nada. Do nada?
Como poderia? Então a gente simplifica. Será que vale a pena simplificar?
De fato, assuntos mais
insanos aceitam bem a simplificação, mas as relações humanas geralmente não lidam
bem com essa coisa. Agimos como se a vida fosse um simples quadrinho de heróis.
Como se tudo fosse fácil assim. É claro que fazemos isso. Quadrinhos não
precisam de explicação. Em HQs, o Hulk segura o planeta (no vácuo?), Dr.
Destino vira um Deus, Superhomem dá um soco na realidade, Barry Allen corre
mais rápido que o tempo. É uma realidade mais livre e gostamos de pensar que
vivemos nela.
Como em quadrinhos,
queremos que tudo se resolva da maneira mais simbólica. Sempre nós veremos como
heróis, e para cada problema que surgir em nossas vidas, temos que imaginar um
vilão para isso. Porque a culpa do seu atraso é culpa do motorista de ônibus
que demora pra chegar. Porque a culpa da sua tristeza é da namorada que deixou
de gostar de você e terminou. Porque a culpa da sua alergia é dos gatos que
passaram pelo seu caminho. Num mundo com tantos vilões, nós nos julgamos heróis
e esperamos que nossas histórias tenham desfechos épicos, sempre terminando com
nós desbravando as adversidades e vencendo o perigo.
No fim das contas, não
somos HQs, somos seres-humanos complexos. Pense em quantas pessoas não tem
culpa pelo motorista do ônibus se atrasar. A esposa dele que pode ter quebrado
um copo na cozinha e pediu para ele varrer, fazendo-o chegar tarde no trabalho.
O chefe dele que gastou tempo dando bronca pelo atraso. O cadeirante que subiu
no carro e que também não tem culpa de precisar de um elevador. A senhorinha
que não tem mais idade para contar moedas em um carro em movimento. Por que o
motorista é o vilão? Por que a culpa é da sua namorada? Se você não cuidava
mais dela com o zelo devido, se um outro garoto cuidava dela melhor, se as
amigas dela falaram para ela ser feliz... Não existem heróis e vilões no mundo
real. Somos todos personagens de mesma relevância.
No fim das contas, quem
foi que te disse que a sua história é a protagonista?

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