quinta-feira, 2 de julho de 2015

Vozes

Senti que voltava à consciência, e esperei que ao abrisse os olhos pudesse ser esclarecida do que estava acontecendo. No entanto, encontrei a escuridão, e estar de olhos abertos, ou fechados, já não fazia diferença.
Ergui um pouco a cabeça, desnorteada, a sentindo latejar na parte lateral que havia ficado de encontro ao chão, enquanto eu ainda estava deitada. Ao colocar a mão, quase gritei de dor ao encontrar um galo extremamente inchado. Suspirei, ainda me controlando para fazer o mínimo de barulho, e voltei a tentar ficar sentada, abraçando o próprio corpo.
Meus braços estavam doloridos, e ardiam por causa do que eu achava serem arranhões – marcas deixadas pela pessoa que havia me arrastado até ali.
Gelei, lembrando, então, daquele olhar frio, que um dia já havia sido de um castanho dócil e encantador. Uma sensação ruim correu por minha coluna, se instalando na boca do estômago, fazendo meus olhos lacrimejarem.
Meu corpo começara a tremer com o medo, mas resolvi tentar me levantar, mesmo que com um pouco de dificuldade. Ao apoiar uma das mãos no chão, percebi, apavorada, que estava um tanto escorregadio e úmido. Era um líquido viscoso, e ao respirar fundo, senti aquele odor nauseante que reconhecia como sendo o de sangue.
Eu teria fechado os olhos, se a escuridão do quarto já não fosse o suficiente para me cegar. O que piorava tudo era saber que aquele sangue não era meu. E agora que eu havia o percebido, o cheiro tomava conta de todo o quarto, entupia meu nariz, e me causava ânsia.
Eu precisava sair dali.
Com as mãos mais trêmulas do que nunca, limpei o sangue na velha calça jeans que vestia, mesmo sabendo das manchas vermelhas que ficariam. Um pouco receosa, me apoiei nas paredes a procura de uma saída. E quando encontrei a porta, tive que respirar fundo e lembrar que precisava ser cuidadosa e, acima de tudo, silenciosa a partir daquele momento.
Ao abrir a porta dei de cara com um pequeno lance de escadas. Segui em frente sem olhar para trás, querendo evitar encarar aquele quartinho iluminado pela luzes que vinham de fora. Não sabia o que podia encontrar, e imaginar não era nada agradável.
A casa estava silenciosa, e eu tinha medo de que meus batimentos cardíacos acelerados pudessem ser ouvidos a distância. Todas as janelas e portas do primeiro andar estavam trancadas. Já as luzes, essas estavam todas ligadas. Minha visão cansada e confusa fazia com que eu me assustasse com a minha própria sombra. Jamais havia me sentido tão frágil, ou vulnerável, em toda a minha vida.
Quase me arrastando, cheguei ao banheiro. Com uma olhada rápida já percebi que estava tudo errado. Avistei primeiro o vidro do espelho rachado, coberto de sangue. Prendi a respiração, novamente enojada com aquele odor. Senti a ânsia chegar também quando, depois, avistei o vidro do box marcado com sangue, cobrindo parcialmente a visão de um corpo largado ali dentro - e mesmo assim, manchado de sangue, eu o reconheci.
Como um reflexo, coloquei uma das mãos sobre a boca, ignorando a dor que sentia ao encostar no lábio inchado, também machucado. Meu desespero se tornou maior, e o nó na garganta se dissolveu em um soluço de dor.
- Pai... - sussurrei, com lágrimas embaçando a minha visão.
Foi então que senti sua respiração quente em minha nuca, me gelando até a alma. Sua risada rouca era quase um grito em meio ao silêncio no qual a casa estava mergulhada; um grito que só não foi maior do que o meu.
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- ME DEIXE SAIR, NÃO VAI DOER. - Dizia constantemente a voz na cabeça de Nilton.

Nilton aprendeu a viver com aquela voz. Os médicos sempre receitavam os mesmos remédios, que faziam-no dormir e perturbavam-lhe a sanidade até mais do que as vozes. A primeira vez que Nilton ouviu uma dessas vozes, foi depois da festa de formatura do fundamental, enquanto ele limpava sua roupa recém comprada com o ponche que derrubaram nele. Desde então as vozes que moravam em Nilton começaram a aparecer. Ele não se importava nem um pouco com as vozes, eram bons amigos. Amigos que Nilton nunca teve.
Foi então, no aniversário de dezoito do recém formando do ensino médio, que Nilton desejou não ouvir mais aquelas vozes. Nilton se lamentou ao acordar no dia seguinte com una nova voz em sua cabeça. Mas essa voz era diferente, ela parecia vir da nuca do garoto, junto com um frio desconfortável e um arrepio nada comum. Essa voz, rouca feito a de um fumante de vida inteira, se apresentou como Vin. Vin prometeu livrar Nilton de todas as vozes, e misteriosamente todas as que Nilton antes ouvia desapareceram de sua cabeça. Mas Nilton não sentiu conforto. A presença de Vin era de alguma forma mais descortável do que antes as vozes foram. No dia seguinte Vin ordenou a Nilton que pagasse sua parte. Já que devia um favor. Vin queria ser livre. Tudo o que Nilton devia fazer era pronunciar a afirmativa. Mas Nilton achava que não deveria fazer isso, ele sabia que Vin era mais do que só uma voz. De alguma maneira ele sabia.
Então Vin passou a repetir isso sempre que Nilton se esquecia da presença do mesmo.
- ME LIBERTE! EU ESTOU AVISANDO! - A voz anunciava. Até que em uma noite que Nilton olhava para a foto de Brenda, sua paixão de ensino médio, a voz parou de anunciar e decidiu agir.
Nilton se viu no meio de um ataque de fúria. Pegou o bastão de baseball que guardava atrás da porta de seu quarto e se dirigiu com passos pesados em direção da casa da vizinha.
O garoto entrou pelos fundos e então sua visão escureceu. Acordou no banheiro, com o pai da garota todo ensanguentado na banheira. O homem estava fardado, provavelmente acabou de chegar do trabalho. Nilton pegou a arma do soldado e guardou na cintura, saindo do banheiro para procurar a por Brenda.
Ele sentia raiva, mas não sabia o motivo. Vin havia parado de falar desde o início daquele episódio, mas Nilton não sentia sua falta. Então Nilton ouviu passos na direção do sótão, e seguiu o barulho. Chegando lá, ele ouviu Brenda respirando pesado e chorando. Nilton ignorou completamente o apelo e deu-lhe uma porrada na cabeça.
- EU AVISEI – Disse Vin. – AGORA EU MESMO ME LIBERTAREI! INSOLENTE!


A voz rouca e respiração gelada estava mais presente do que nunca para Nilton, que por nenhum motivo aparente sacou a pistola que guardava na cintura e atirou na única lâmpada que iluminava o local. Então Nilton sentiu seu braço se movendo, levando lentamente a pistola na direção de sua testa. Nilton não conseguia falar, mas sua sanidade foi recuperada. O garoto começou a soluçar de pânico, engasgando com suas lágrimas. Então Nilton sentiu o dedo começando a apertar lentamente o gatilho.

A voz riu.


 

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