quinta-feira, 30 de julho de 2015

Criaturas

Estou deitado na minha cama, usando um jeans preto e uma camisa branca de mangas longas que mal mostram as minhas mãos. Com os dedos da mão direita eu brinco com uma bola de gude, que me faz lembrar da minha infância. Minha mochila está no chão, encostada na parede do quarto. O quarto em que estou é meu há uns três anos, e ainda assim não me acostumei com o lugar. A luz está acesa e um pouco da luz do sol, que agora está se preparando para dar lugar à lua, entra pela minúscula janela engradeada e mal projetada acima da porta.

Depois de alguns minutos, a escuridão toma conta do lado de fora da casa. Fecho os olhos, bufo e me levanto lentamente. Ando com passos lentos na direção do armário,  ainda segurando a bolinha com a mão direita. Abro a porta do armário e pego a única roupa que está pendurada dentro do mesmo. Tiro o sobretudo marrom do cabide e fecho a porta do guarda-roupa. Visto o sobretudo e me dirijo até o outro lado do quarto, aonde se localiza outra cama. A cama não tem colchão, no lugar do mesmo há apenas uma superfície lisa feita de madeira.

Olho para os objetos colocados sobre a cama com desdém, e um a um vou guardando-os no sobretudo. Dois bastões de 50 centímetros cada vão um em cada bolso interno do overcoat. Uma espada japonesa com entalhes chineses na bainha também se encontra sobre a cama. Ela provavelmente foi comprada em um camelô chinês qualquer mas ainda assim, mesmo que levemente enferrujada e pouco afiada, faz seu trabalho melhor do que uma faca de cozinha muito bem amolada. Guardo a pseudo katana protegida pela bainha no "coldre" costurado por mim no lado esquerdo do sobretudo, na altura da cintura. O peso faz com que o sobretudo desça um pouco do lado esquerdo mas ajusto-o como de praxe. Vou até a porta aberta do banheiro e fecho-a, revelando uma espingarda preta de chumbinho encostada na parede atrás de onde antes a porta estivera cobrindo. Pego a espingarda com a mão esquerda e quase a deixo cair com o peso. Às vezes me esqueço que ela não é de brinquedo. Com a mão direita, que ainda segura a bolinha, eu tateio o bolso direito do sobretudo até encontrar uma caixinha que guarda uns 150 chumbinhos de munição.

Tudo pronto. Ando até a porta central e abro-a com a mão direita, quase deixando a bolinha cair. Estou muito desastrado hoje, mas não importa, é hora de partir. Deixo a porta aberta e saio do quarto, sentindo o vento frio de inverno batendo em meu rosto. Passo pela varanda da casa, passando cuidadosamente pelos três corpos jogados no chão. Tento não olhar para eles e prendo o nó na garganta. Minha família morreu, chorar não vai mudar nada. Matar todos esses malditos que fizeram isso que vai. Abro o portão da rua e piso para fora, e imediatamente ouço um gemido vindo da esquina da rua. Ando até o meio da rua e solto a bolinha, que quica lentamente e cai em um bueiro. A criatura infernal, que geme na esquina da rua ouve o barulho e vira para mim. Seus olhos vermelhos e brilhantes parecem penetrar em minha alma e gelam minha nuca. Tiro um chumbinho do bolso e carrego a arma. A criatura começa a correr ferozmente na minha direção, preparada para a refeição.

Aponto a espingarda na direção da cabeça e espero que se aproxime mais para aumentar a precisão. A criatura então para e aponta as duas mãos, unidas, para mim. Atiro.

Acertei em cheio. A criatura cai para trás e sangue jorra por um buraco acima do olho esquerdo, na testa. Todos eles vão pagar, vou exterminar esses malditos da face da terra. E aí quem saiba eu entenda como tudo começou. E até agora não consegui explicar o motivo deles tentarem falar como humanos. A criatura que acabei de matar, por exemplo, disse em seus últimos segundos de vida: "Polícia! Você está preso por assassi".

Continuei pelo caminho escuro, em um beco, mais uma dessa criaturas devorava sua presa tortuosamente e sem a menor piedade. O vento que bate em mim e segue na sua direção, carrega o meu cheiro fazendo-o olhar para mim. Gelo e não hesito. O barulho da espingarda ecoa em meu ouvido e com a pressão chegou um ouço para trás. A criatura cai morta e ainda estrebucha um pouco caída. Mais uma fora do meu caminho, ainda faltavam três. Segui pelo beco até uma grade no final que me deu um trabalho para pular. As poças de sangue formadas sujavam minha calça marrom e meus sapatos engraxados. Ouvi um granido vindo de cima. Uma escada de incêndio abrigava mais um deles que pulou em cima de mim com rancor. Atirei mais uma vez, antes que ele pudesse sequer pensar. Não fui rápido o suficiente e fui esmagado por ele.

Com dificuldade me arrastei para o outro canto molhando o sobretudo e minha camisa. Somente quando levantei e seguidor uns dois quilômetros percebi que o bolso do casaco estava furado e não tinha mais nenhum chumbinho.

Joguei a espingarda para uma lata de lixo quebrada e continuei o caminho com a espada na mão. Seria mais difícil seguir apenas com ela, mas era a única coisa que me restara.

Pude ouvir mais um gemido que me gelou a nuca novamente. Então me virei. Uma enorme criatura seguida de outra me encarava com seus olhar penetrante. Respirei fundo e sem poder me mexer esperei o ataque.

A primeira veio em minha direção, mas sua inteligência debilitada não o ajudou, logo acertei a espada em sua barriga o derrubando no chão.

O segundo olhava minhas mãos com o sangue de seu companheiro. Sem me dar chance de pensar veio para cima. Um suspiro foi a última coisa que me restou.

Caí sangrando na porção esquerda de meu pescoço que estava em carne viva. Vários pensamentos vieram rapidamente em minha mente, mas um foi o mais importante: Cismavam em falar como nós, pois eram nós. Seres Humanos cegos pela ganância, ambição é sede de poder. Era isso que nos transformávamos aos poucos...


 
 

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