quinta-feira, 28 de maio de 2015

Então, filho...

- Então, filho... Já decidiu que faculdade você vai fazer? É uma decisão importante e já está na hora de começar uma.

- Na verdade, sim. Porém não a faculdade especificamente. Esta não participa dos meus meticulosos planos nada elaborados.  

- 'Planos nada elaborados'? Filho, nós já tivemos essa conversa antes. Logo você estará fazendo vestibular e não quero que meu filho seja mais um desses jovens indecisos e despreparado pra encarar o mundo. Acho bom que você começar a pensar mais seriamente em relação ao seu futuro. 

- Pai, você não entende que já pensei. Escreverei meus roteiros, criarei as melhores histórias, mudarei o universo do cinema e deixarei minha marca. Não necessito de faculdade para isso, tampouco planos para longo prazo. Tudo o que pensar certamente mudará, seguirá outro caminho, talvez o contrario, e completamente diferente. Então, sim, eu já me decidi. Mas não cada passo, não faria sentido.

- Espera... Eu ouvi direito, querida? Nosso filho quer escrever roteiros? Ele não quer ser engenheiro. Ele não quer ser empresário. Ele não quer ser nem um jornalista, que já não é lá grande coisa. Ele quer apostar seu potencial num simples desejo de escrever roteiros de filmes. Por favor, me diga que estou ouvindo mal.

- Respeite a vontade do seu filho, querido. Além disso, não acho que ele vai querer fazer apenas isso. Não é?

- Essa é a beleza dos planos sem rumo. Quem dirá o que pode acontecer? Quem dirá que não escreverei em outras áreas? Quem dirá que além de criar, não tornarei real? Quem dirá que a direção não será minha maior e mais nova ambição? Quem dirá que não é possível? Não está nos planos, mas na verdade não há quase nada neles mesmo. Então... Quem se importa? Naturalmente tudo vai acontecendo. 

- Quem se importa? Eu me importo! Sua mãe se importa! Por isso que nós gastamos tanto dinheiro com seus estudos. Podíamos estar tirando férias agora e deixar você e seu irmão abandonados aqui com o mínimo, estudando numa escola pública qualquer. Mas não fizemos isso porque não é o futuro de qualquer 'Zé Ruela', é o futuro do nosso filho. A única coisa que pode vir de natural desses seus pensamentos é a sua falência. Não estaremos sustentando você pra sempre.

- Ihhhh... Levou bronca! AHAHAH

- Quieto, filho! Estamos falando com o seu irmão. E podemos sustentá-lo tanto tempo quanto for necessário. Sabemos que ele vai se empenhar. Não é?

- Mulher, não me contradiga na frente de nossos filhos...

- Não se trata uma mulher assim, ainda menos a que se escolheu amar. Não tem de me sustentar com essas arrogâncias, basta que confie em mim. Arte falta em sua vida e o reconhecimento dos espetáculos nela. Permita-se abrir a mente por um momento, saia do foco de seu escritório e do salário em seu bolso. Veja a beleza das coisas. A leveza inimaginável. Escute-me, só um pouco. Olhe em volta, respire fundo, de uma chance ao risco. Relaxe. Faria bem para mim, para você e o resto do mundo. Ultrapassado não é ‘vintage’, meu velho.

- Primeiro: cuidado com a forma que você fala comigo, garoto. Segundo: O único futuro que uma vida sustentada por arte pode dar é um futuro miserável. Se alguém quer viver, e não sobreviver, não trabalha com ela. E não preciso dela na minha vida. Já sou feliz o suficiente. Terceiro: Termine seu jantar e vá pro seu quarto fazer algo que realmente preste, como procurar cursos de verdade nas faculdades. Você já passa o dia todo no seu computador, gastar umas horas nessa pesquisa não vai custar nada.

- Nem é má ideia, preciso fazer uma pesquisa para uma personagem. Ainda não decidi que faculdade ela fará. Sabe como é, não é? A famosa decisão: direito ou engenharia? Pobre indecisa. Planeja demais.
E há outro, coitado, pior que a menina. Está em tempos difíceis. Tanto potencial e nenhum apoio. Mal consigo imaginar tal sofrimento.

Ah e lembre-me de lhe recomendar depois alguns filmes para que possa entender meu lado. Tenho a sensação de que o bom e velho Tarantino lhe fará mudar de opinião. 


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