- Então, filho... Já decidiu que faculdade você vai fazer? É
uma decisão importante e já está na hora de começar uma.
- Na verdade, sim. Porém não a faculdade especificamente.
Esta não participa dos meus meticulosos planos nada elaborados.
- 'Planos nada elaborados'? Filho, nós já tivemos essa
conversa antes. Logo você estará fazendo vestibular e não quero que meu filho
seja mais um desses jovens indecisos e despreparado pra encarar o mundo. Acho
bom que você começar a pensar mais seriamente em relação ao seu futuro.
- Pai, você não entende que já pensei. Escreverei meus
roteiros, criarei as melhores histórias, mudarei o universo do cinema e
deixarei minha marca. Não necessito de faculdade para isso, tampouco planos
para longo prazo. Tudo o que pensar certamente mudará, seguirá outro caminho,
talvez o contrario, e completamente diferente. Então, sim, eu já me decidi. Mas
não cada passo, não faria sentido.
- Espera... Eu ouvi direito, querida? Nosso filho quer
escrever roteiros? Ele não quer ser engenheiro. Ele não quer ser empresário.
Ele não quer ser nem um jornalista, que já não é lá grande coisa. Ele quer
apostar seu potencial num simples desejo de escrever roteiros de filmes. Por
favor, me diga que estou ouvindo mal.
- Respeite a vontade do seu filho, querido. Além disso, não
acho que ele vai querer fazer apenas isso. Não é?
- Essa é a beleza dos planos sem rumo. Quem dirá o que pode
acontecer? Quem dirá que não escreverei em outras áreas? Quem dirá que além de
criar, não tornarei real? Quem dirá que a direção não será minha maior e mais
nova ambição? Quem dirá que não é possível? Não está nos planos, mas na verdade
não há quase nada neles mesmo. Então... Quem se importa? Naturalmente tudo vai
acontecendo.
- Quem se importa? Eu me importo! Sua mãe se importa! Por
isso que nós gastamos tanto dinheiro com seus estudos. Podíamos estar tirando
férias agora e deixar você e seu irmão abandonados aqui com o mínimo, estudando
numa escola pública qualquer. Mas não fizemos isso porque não é o futuro de
qualquer 'Zé Ruela', é o futuro do nosso filho. A única coisa que pode vir de
natural desses seus pensamentos é a sua falência. Não estaremos sustentando
você pra sempre.
- Ihhhh... Levou bronca! AHAHAH
- Quieto, filho! Estamos falando com o seu irmão. E podemos
sustentá-lo tanto tempo quanto for necessário. Sabemos que ele vai se empenhar.
Não é?
- Mulher, não me contradiga na frente de nossos filhos...
- Não se trata uma mulher assim, ainda menos a que se
escolheu amar. Não tem de me sustentar com essas arrogâncias, basta que confie
em mim. Arte falta em sua vida e o reconhecimento dos espetáculos nela.
Permita-se abrir a mente por um momento, saia do foco de seu escritório e do
salário em seu bolso. Veja a beleza das coisas. A leveza inimaginável.
Escute-me, só um pouco. Olhe em volta, respire fundo, de uma chance ao risco.
Relaxe. Faria bem para mim, para você e o resto do mundo. Ultrapassado não é
‘vintage’, meu velho.
- Primeiro: cuidado com a forma que você fala comigo,
garoto. Segundo: O único futuro que uma vida sustentada por arte pode dar é um
futuro miserável. Se alguém quer viver, e não sobreviver, não trabalha com ela.
E não preciso dela na minha vida. Já sou feliz o suficiente. Terceiro: Termine
seu jantar e vá pro seu quarto fazer algo que realmente preste, como procurar
cursos de verdade nas faculdades. Você já passa o dia todo no seu computador,
gastar umas horas nessa pesquisa não vai custar nada.
- Nem é má ideia, preciso fazer uma pesquisa para uma
personagem. Ainda não decidi que faculdade ela fará. Sabe como é, não é? A
famosa decisão: direito ou engenharia? Pobre indecisa. Planeja demais.
E há outro, coitado, pior que a menina. Está em tempos
difíceis. Tanto potencial e nenhum apoio. Mal consigo imaginar tal sofrimento.
Ah e lembre-me de lhe recomendar depois alguns filmes para
que possa entender meu lado. Tenho a sensação de que o bom e velho Tarantino
lhe fará mudar de opinião.

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