Meus olhos choram lágrimas
densas espessas de sangue. Sangue rubro e pulsante. Meu rosto emana dor e
sofrimento. Olhe fundo para mim e não verás nada. Nada mais do que um vão
obscuro de torpor. Uma alma tão vazia que ecoa. Eu poderia lhe dizer que o amor
me fez isso. Mas por que ser tão meloso e melodramático? A culpa é toda sua.
Foi você quem implantou o ódio fundo na minha vida.
Fiz de tudo para estar do
seu lado, mas toda vez que minha mão tocava a tua, tuas unhas afiadas e rudes
rasgavam minha pele do pulso até as unhas. Minhas veias jorravam sangue pelo
teu esmalte descascado e o rasgo do meu punho ardia em brasas quentes
fervorosas. Brasas que tua mão me provocava com um sorriso no rosto de uma
ternura imensa, de uma puta alegria que nada mais lhe poderia causar.
Se eu tentava lhe beijar,
perdia pedaços de minha língua despedaçada, sentia meus lábios incharem até
explodir em pedaços. Até mesmo meus dentes sangravam [e de onde tiravam o
sangue?] de tanta dor que nem mesmo o dentista mais açougueiro seria capaz de
causar a um ser humano.
Isso porque prefiro não
comentar do sexo. Pois por isto já estou todo rasgado de cima a baixo, de cabo
a rabo [ênfase no rabo] de tantas facas e unhas e dentes que me sangraram por
todo esse tempo. Cada mordida e cada arranhão era um prazer enorme para você e
uma dor infernal sobre mim.
E agora que finalmente meu
corpo está curado de tuas carícias, são meus olhos que sangram. Por que toda a
dor do mundo, todo ardor e todo rasgo, todo o sangue, tudo isso é puro néctar
se comparado a dor de passar um mês de fevereiro longe do seu sorriso. A morte
é apenas a nossa maneira de se amar. Me ame. Me mate. Me purifique. Drene meu
sangue até a última gota, até que não reste mais nada além de amor.
Outros de Guilherme Moraes: Janeiro é minha sorte.


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