terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Em nome de Deus

‒ Está tudo acabado minha filha. Encontrei Donald e Russel mortos ontem a noite. Todos já se foram. Mas nós estamos vivos.‒ Explicou Daniel a sua filha. A guerra tinha levado todos os homens e mulheres ao impulso de se matarem. Bilhões de pessoas mortas em questão de meses. A brutalidade varreu a humanidade da face da Terra.

‒ O que faremos agora, pai? ‒ Perguntou Melissa. A pequena garota não sabia se devia sorrir ou chorar. Eram os últimos seres humanos da Terra. O ponto entre a extinção total e um recomeço.

‒ Eu não sei.

Melissa era uma menina de apenas treze anos. Seu pai já alcançara os trinta e dois. A primeira semana foi regada de uma paz tranquilizadora a sensação de liberdade e de muita vida. A humanidade estava de fato acabada, e com ela, a brutalidade. A guerra tinha sido tão rápida que ainda havia muitos cadáveres por todos os cantos. Os recursos que ainda restavam eram o suficiente para reerguer uma civilização. Começar do zero. Daniel era um novo Adão e sentia uma força divina impelindo-o para criar essa nova civilização. O novo Adão. O novo Noé. O novo começo.

Crescei e multiplicai-vos. Daniel deu um pequeno sorriso ao pensar que ele poderia dar a vida a uma nova variedade de seres humanos. Foi quando a verdade arrebatadora atingiu sua mente paterna. Sua Eva, a mulher que deveria dar luz a primeira criança do novo mundo, era também sua filha de sangue, uma menina de apenas treze anos.

‒ Melissa...

A garota ouviu as palavras do pai com nojo, repulsa, correndo pela garganta. A ideia só piorava a cada parágrafo. Daniel queria que ela tivesse uma menina e que, após o nascimento da criança, que novamente tivessem outra menina, talvez umas quatro ou cinco netas que serviriam depois como parceiras.

‒ É um sacrifício pela humanidade. Tudo começou assim, sabia? Homens que se viram obrigados a transar com suas filhas, netas e irmãs. Daqui a algumas gerações, não haverá mais parentesco entre ninguém.

Melissa não teve escolha. Seu pai, trinta e dois anos e muito mais força do que ela, tomou-a pelos braços e penetrou a menina sob muitos protestos. A pequena gemia e gritava, mas não havia ninguém para lhe ouvir. Foi um trabalho duro por longos dias e noites. Melissa não resistia mais. Seus braços estavam vermelhos e roxos. Sabia que não podia lutar contra a força da insanidade de seu pai. Com o tempo, a garota engravidou e recebeu dez meses de folga. Tão logo acabaram-se os meses, seu pai já tentava novamente engravidá-la. E assim foi até que Melissa tivesse dado luz a seis meninas e um menino. A garota implorou para que o pai não tocasse em suas filhas, mas o homem não teve piedade. Ele falava no nome de Deus e dizia que a humanidade dependia dos seus esforços.

Aos cinquenta e sete anos, Daniel morreu deixando doze filhas-netas, sete filhas-bisnetas, 5 filhos-netos e 2 filhos-bisnetos, além de sua filha Melissa, que passava maior parte do tempo sentada sem reagir ao mundo que se erguia em sua volta. Daniel matou a humanidade que restara em sua filha, em nome de Deus.
 

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