Era uma vez, em um reino arbóreo e cercado de coisas vivas, uma família de interior. O casal que morava ali dentro, um lenhador dedicado e uma cuidadora de animais, lutava contra os infortúnios para ter um filho. Toda noite, olhavam para os céus a espera de uma mágica estrela azul que pudesse conceder as suas vontades. Certo dia, a estrela apareceu. Voando pelos céus, a estrela cintilava um lindo anil e quando se moveu, caiu com leveza no colo da mulher. Naquela noite, os gêmeos foram concebidos. Peg e Shiu eram crianças abençoadas, que carregavam todos os sonhos do casal apaixonado. Peg era um garoto carinhoso, nascido para tomar conta dos seus pais quando envelhecessem. Shiu era talentoso, vindo para honrar a família e ter seu nome reconhecido por todos.
Com o tempo que passou, cada característica se intensificava dentro de cada um dos dois. O primeiro ajudava os pais em suas tarefas e encantava a todos com a sua dedicação à família. O segundo se tornava cada vez mais hábil com a espada e provava a todos que era digno de honrarias. Connie foi o que aconteceu a esta família. A garota era a linda filha caçula do banqueiro e procurava um casamento em uma pequena cidade. Shiu se apaixonou pelas riquezas e pela beleza que Connie representava. Conseguia se imaginar lutando com dezenas de homens, arrancando dedos em batalhas até que fosse o último candidato pela mão da menina. Quando ouviu sobre a competição, tomou o primeiro cavalo e cavalgou até o local da disputa.
Seus pais não se incomodaram. Desde seu nascimento, a honra que Shiu procurava era somente para ele. Nunca estava em casa quando era preciso. Sempre se vangloriando de sua majestade, seus pais raramente notavam sua ausência, pois era algo tão comum e tão rotineiro, que a sua presença era o que realmente surpreendia. Quando completou dezesseis anos, Shiu já morava sozinho e se sustentava com as glórias de sua habilidade como espadachim. Mesmo assim, Peg temeu pela partida do irmão e disse que iria até a cidade procurar por ele.
Quase não acreditou que seu irmão viajara tão longe para disputar um casamento. Não parecia ser do feitio de Shiu, mas afinal, como poderia saber se o irmão nunca era visto? Peg tentou colocar alguma razão na cabeça do cavalheiro:
‒ Shiu, vamos voltar para casa. Você não precisa do amor desta mulher. Alguém que coloca seu coração a prêmio, é isso que você quer? Você sabe que esse tipo de gente mata por dinheiro. Eu não vou deixar que te matem. E quando ela encontrar alguém que seja maior que você? Acha que ela não vai deixá-lo para ficar com ele? ‒ Disse Peg com os olhos lacrimejando de amor pelo irmão.
‒ NÃO HÁ MAIOR QUE EU, IRMÃO! Eu vou vencer essa competição e me tornar rico. É isso o que papai e mamãe gostariam. De um filho rico e forte. Volte para sua vida, deixe-me seguir a minha.
Peg pensou em voltar para casa. Mesmo assim, achou que tinha que dar um jeito de impedir que o irmão se arriscasse nesta briga. Então, resolveu entrar pelos fundo da arena de luta e falar com o banqueiro que não deixasse que Shiu disputasse. Quando entrou pelos fundos, tudo o que encontrou foi uma linda garota.
‒ Moça, eu procuro pelo banqueiro. Meu irmão acabará morto nesta disputa horrível. Se ele lutar, minha família será destruída, não posso deixar que isto aconteça!
‒ Entendo. Receio que eu não possa fazer nada. Meu pai nunca impediria um homem de lutar pela minha mão. Ele quer que a briga seja a maior possível, com o maior número de mortes. Receio que seu irmão tenha que lutar bravamente. ‒ Disse a garota. Peg percebeu que falava com Connie, a garota por quem os homens matariam.
‒ Então você é ela? Connie, filha do banqueiro. Meu irmão vai se matar por seu dinheiro. Fique com o sangue dele e de todos na sua mão. ‒ Então Peg se virou pensando em voltar para a arena para torcer pela vida do irmão.
‒ Espere. Por favor, eu preciso de ajuda. Eu não quero que esses homens lutem por mim. Tudo o que eu queria era uma vida normal, com um marido zeloso e filhos. Essa guerra que meu pai trava é só dele. Eu não a quero. Me ajude a fugir.
Peg olhou outra vez para Connie. Ela era linda de fato. Sua boca suave como as nuvens era um convite tentador. Olhou-a nos olhos e duvidou que o dinheiro fosse a verdadeira razão pela qual os homens lutavam. Talvez, o coração dela valesse o sacrifício. Ele sentiu vontade de ajudá-la, mas sabia que se fugisse com ela, Shiu não teria chance alguma. Ele tinha de ficar. Sentou-se ao lado dela e disse que não podia salvá-la, mas que, assim que garantisse que seu irmão estivesse a salvo, tentaria protegê-la. Talvez, juntos, Peg e Shiu pudessem resgatá-la e levá-la para longe, mas tinha que garantir a vida do irmão antes de tudo. Connie respondeu com um sorriso.
A arena estava lotada de homens ferozes. Todos gritavam e brandiam armas. Um a um, se digladiavam no círculo de areia. O sangue jorrava em todas as direções. Uma placa de madeira marcava treze mortos. Então Shiu entrou no ringue. Ele sorria como um vencedor. Seu irmão teve dificuldade de distingui-lo. Nunca entendeu a necessidade que ele tinha de mostrar o poder. Para Peg, sua família era a paz que procurava, Shiu procurava mais, procurava o orgulho, mas seu irmão não conseguia se orgulhar.
Doze homens caíram pelas mãos de Shiu. O garoto nascido da estrela era imbatível como se uma mágica brotasse dos seus músculos e garantisse a honra a qual estava destinado. Muitos combatentes fugiram com medo de um massacre. Peg começou a comemorar que seu irmão viveria, mas quando olhou para o ringue, viu o que mais temia: um homem que faria mal a pequena Connie. Seu irmão era o homem que ele jurou afastar da pequena filha do banqueiro. Quando nenhum homem quis mais duelar, Peg foi a o centro do ringue. Com um olhar, viu um sorriso no rosto de Connie. Enfim um homem como os que eu sonhava.
‒ Então é isso? Você não suporta ver o meu sucesso, Peg? ‒ Gritou Shiu, com tristeza no olhar. ‒ Você não consegue parar de ser o filhinho da mamãe? Tem que ser o mais cuidadoso e mais bem-sucedido. Quando eu ganhar de você, eu vou ser rico e vou cuidar de nossos pais. Eu vou ser o filho perfeito e você, vai ser uma lembrança medíocre.
Peg não teve palavras contra o irmão. Sua espada o impeliu para cima do gorila que não mais era seu sangue. Connie brilhava na sua cabeça. Sua espada movia-se pratiamente sozinha. As personalidades nascidas da estrela lutavam. Os gêmeos guerreavam fortemente. De um lado, Shiu honraria a família, mas nunca teria forças para cuidar de seus pais. Do outro, Peg poderia cuidar de tudo quando retornasse, mas para isso, teria de se tornar um monstro e matar o irmão em um duelo. Quando a magia da estrela anil decidiu que irmão venceria, o sangue de Shiu lambuzou as paredes da arena. Nada de honra. Peg sentia-se mais sujo do que nunca, mas havia salvado Connie e garantido que seu irmão não se tornasse um monstro.
Seus pais não acreditaram na história. Tudo o que ouviram, vinha dos lábios macios de Connie, que contava com calma enquanto assistia Peg chorar infinitamente. Ele não podia suportar a dor de ter matado seu irmão, mas seus pais compreendiam tudo o que tinha feito. Eles o apoiavam. De noite, sob a luz de uma estrela azul-anil, Connie lhe deu um beijo maior do que qualquer honra. Peg havia salvo sua família e criado uma outra para ele mesmo. Proteger a pequena garota era algo que seu coração gritava, mais alto do que qualquer outra coisa.
Eles se amaram e viveram felizes para sempre.

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