terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Hipocrisia numa mesa de bar

Tamanha a hipocrisia numa mesa de bar. Demorei até perceber que sentar-se com os amigos também demandava muitos pensamentos. Aqueles garotos, aquelas crianças em cujos lábios nunca uma gota de álcool tocou. Agora, todos bebiam. De onde havia brotado essa vontade de alcoolizar-se? Olhei para os lados. Eu não bebo. Não sinto essa vontade. Gosto de notar os detalhes e de me lembrar das minhas noites inesquecíveis. De alguma forma, sinto que o amargor da cerveja vai arruinar as minhas noites, me tornar aquilo que eu jurei para mim mesmo que nunca seria.

A garota do meu lado pede um chope. Mesmo? A mesma menina que pedia permissão para a mãe para ir à esquina agora tomava uma taça de chope com os amigos? Noto com pena a expressão que ela faz ao levar a taça até a boca. Sua expressão é séria. Está tentando fortemente ser adulta. Tenho vontade de lhe perguntar se ser adulto significa tomar chope. Ela olha para os lados. Ela quer que as pessoas a vejam tomando cerveja. Eu tomo um gole do meu refrigerante.

A minha frente, uma outra garota pede uma caipirinha. Esse truque eu já tentei. Ela espera que a caipirinha venha com o maior gosto de limonada possível. Logicamente, pedir uma bebida doce vai lhe dar a desculpa que precisava. Ela apanha o copo da bebida. Toma um gole. Estranho o volume do líquido não ter se alterado. Quase dez minutos depois ela toma outro, o volume ainda é o mesmo. Ou talvez só esteja descendo devagar. Mais de uma hora com o mesmo copo e ele chega enfim à metade. Por fim, ao terminar duas horas, ela termina o pequeno copo da bebida. Diz que está tonta. Logicamente, é uma tática: ou por que não tem mais dinheiro para pedir outra bebida, ou simplesmente porque ‒ como desconfio ‒ ela nunca quis beber álcool. Quero lhe dizer que um copo não pode deixá-la tonta. Ainda mais um copo com tanto gelo derretido. Finjo que não sei de nada. Faço uma piada sobre a fraqueza dela. Finjo me importar com o seu bem estar e digo que não a deixarei mais beber nada.

Outros por todos os lados pedem taças de chope. Cerveja preta para alguns. Eles riem como se a bebida os desse autorização para serem escandalosos. Meu amigo quer fingir que a bebida o deixou louco, mas é apenas a sua afetação de sempre. Todos estão tão alcoolizados quanto eu. A diferença é uma: eu continuo bebendo meu refrigerante. Ninguém se dá ao trabalho de fazer um comentário. Sabem que eu não estou ali para fingir. Sabem que eu só estou atrás de uma genuína diversão. Uma de verdade, não fingida.

A terceira garota não pede um chope. Ora, mas não se engane. Não é que ela não finge, é só que tem que fingir para pessoas demais. Fingir para os amigos que bebe. Fingir para os pais que não bebe. Fingir que é adulta. Fingir que é criança. Muitos personagens, querida. Ela enfim bebe um gole de um chope. Claro que não pediu. Pegou goles de bebidas que os outros pediram. Ao contrário da que fica séria bebendo, esta não para de rir. Deve ser realmente engraçado beber álcool. Sempre pensei em como deve ser engraçado. Na verdade, não. Não tem graça nenhuma. Nunca teve. Esse sorriso é puro nervosismo. Medo de um de seus personagens escolher ser o principal.


Tamanha a hipocrisia na mesa de um bar. Minha mãe me lembra de levar a identidade antes de sair de casa. Mais do que um simples documento identificatório, levo a minha identidade, meu personagem, minhas escolhas. Todos bebem seus chopes. Eu tomo u gole do meu refrigerante.


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