quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O Homem espelhado


 




O homem olha para o reflexo.
Em seu espelho há uma imagem familiar. Tão familiar que lhe causa a sensação de conforto, como se estivesse sozinho. Ao olhar pelo espelho ele encontra um rosto em que sabe que pode confiar. O rosto lhe é conhecido, e encara com reciprocidade. O homem sabe que aquela imagem se encaixa perfeitamente nele. O homem também sabe que o reflexo não é exatamente como ele. De fato, tudo no reflexo é o inverso do homem.
Mas o homem sente uma sensação estranha. Mesmo com a extrema diferença dele para o reflexo, ele sabe que são iguais. Bem, se não são iguais, ao menos se completam perfeitamente.
O homem encara seu Yin com a noção de ser o Yang. Ele acena com a cabeça, em uma espécie de micro reverência, com extremo respeito. O reflexo faz o mesmo, cronometricamente ao mesmo tempo em que o homem. A sensação é de que aquilo tudo foi treinado por semanas. Como tamanha perfeição em similaridade de gestos, expressões e olhares podem ser apenas sorte?
O homem então conta seus problemas para o reflexo. Conta tudo que lhe apodrece interiormente. Mesmo sendo uma pessoa feliz, ele tem problemas. Ele também sabe que o reflexo tem seus problemas, mas isso não importa por agora. Agora o homem quer ser ouvido, e isso é tudo que o reflexo faz. O único som audível no quarto é o dos lamentos do homem, que atira seus problemas ao espelho como se estivesse jogando uma carga aos ombros de outro. O homem então começa a chorar descontroladamente. Então, ele olha para o reflexo. O reflexo, emocionado com a história, chora da mesma forma. O homem então encontra forças para parar de chorar, e aos poucos vai engolindo o choro. O reflexo, feliz com a recuperação do homem, também engole seu choro e volta a olhar fixamente nos olhos do homem.
Os dois ficam se olhando por bastante tempo, como se não houvesse mais nada para fazer. Então o homem sorri para o reflexo, feliz o grande amigo que ele tem. O reflexo sorri de volta.
Ambos acenam com a cabeça e se despedem. O homem sai da frente do espelho e vai ao banheiro.
Não tem pressa, ele sabe que quando voltar seu fiel amigo estará lá, pronto para lhe ouvir. Mesmo que o homem demore meses para retornar ao espelho, ele sabe que o reflexo estará lá e eles vão se encarar, entender suas diferenças e agir da forma mais similar e diferente possível. O homem então volta para o espelho.
Levanta o punho e dá um leve soco na superfície lisa e um pouco suja.
O reflexo que não tinha ido embora faz o mesmo e com um cumprimento amigo e pouco usual deixa mais uma lágrima escorrer.
Lágrima essa de emoção que rapidamente foi secada e escondida e o homem finalmente se vai deixando seu silencioso conhecido sozinho a esperar. Esperando a próxima oportunidade de ser útil e de talvez deixar-se ser também.

O homem é um ser humano qualquer e por isso também erra. O reflexo não tem culpa, ele só queria ter a chance de ser ouvido uma única vez, de experimentar como é ter alguém sempre lá por ele. De não precisar ser "forte" o tempo todo.
Mas o destino é cruel e o homem esquecido.
Ele não lembra que seu companheiro para toda angústia também vive. E por viver ele também ama. E por amar ele também sofre. E por sofrer ele também vive.
Pro revérbero resta lamentar-se só enquanto nenhuma superfície refletora o convoca pra mais uma seção de terapia.
Apenas esperar. Pois o reflexo vive. E ele sofre.

E você? Já falou com seu reflexo hoje?

 
  

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