O homem olha para o
reflexo.
Em seu espelho há uma
imagem familiar. Tão familiar que lhe causa a sensação de conforto, como se
estivesse sozinho. Ao olhar pelo espelho ele encontra um rosto em que sabe que
pode confiar. O rosto lhe é conhecido, e encara com reciprocidade. O homem sabe
que aquela imagem se encaixa perfeitamente nele. O homem também sabe que o
reflexo não é exatamente como ele. De fato, tudo no reflexo é o inverso do
homem.
Mas o homem sente uma
sensação estranha. Mesmo com a extrema diferença dele para o reflexo, ele sabe
que são iguais. Bem, se não são iguais, ao menos se completam perfeitamente.
O homem encara seu Yin
com a noção de ser o Yang. Ele acena com a cabeça, em uma espécie de micro
reverência, com extremo respeito. O reflexo faz o mesmo, cronometricamente ao
mesmo tempo em que o homem. A sensação é de que aquilo tudo foi treinado por
semanas. Como tamanha perfeição em similaridade de gestos, expressões e olhares
podem ser apenas sorte?
O homem então conta
seus problemas para o reflexo. Conta tudo que lhe apodrece interiormente. Mesmo
sendo uma pessoa feliz, ele tem problemas. Ele também sabe que o reflexo tem
seus problemas, mas isso não importa por agora. Agora o homem quer ser ouvido,
e isso é tudo que o reflexo faz. O único som audível no quarto é o dos lamentos
do homem, que atira seus problemas ao espelho como se estivesse jogando uma
carga aos ombros de outro. O homem então começa a chorar descontroladamente.
Então, ele olha para o reflexo. O reflexo, emocionado com a história, chora da
mesma forma. O homem então encontra forças para parar de chorar, e aos poucos
vai engolindo o choro. O reflexo, feliz com a recuperação do homem, também
engole seu choro e volta a olhar fixamente nos olhos do homem.
Os dois ficam se
olhando por bastante tempo, como se não houvesse mais nada para fazer. Então o
homem sorri para o reflexo, feliz o grande amigo que ele tem. O reflexo sorri
de volta.
Ambos acenam com a
cabeça e se despedem. O homem sai da frente do espelho e vai ao banheiro.
Não tem pressa, ele
sabe que quando voltar seu fiel amigo estará lá, pronto para lhe ouvir. Mesmo
que o homem demore meses para retornar ao espelho, ele sabe que o reflexo
estará lá e eles vão se encarar, entender suas diferenças e agir da forma mais
similar e diferente possível. O homem então volta para o espelho.Levanta o punho e dá um leve soco na superfície lisa e um pouco suja.
O reflexo que não tinha ido embora faz o mesmo e com um cumprimento amigo e pouco usual deixa mais uma lágrima escorrer.
Lágrima essa de emoção que rapidamente foi secada e escondida e o homem finalmente se vai deixando seu silencioso conhecido sozinho a esperar. Esperando a próxima oportunidade de ser útil e de talvez deixar-se ser também.
O homem é um ser humano qualquer e por isso também erra. O reflexo não tem culpa, ele só queria ter a chance de ser ouvido uma única vez, de experimentar como é ter alguém sempre lá por ele. De não precisar ser "forte" o tempo todo.
Mas o destino é cruel e o homem esquecido.
Ele não lembra que seu companheiro para toda angústia também vive. E por viver ele também ama. E por amar ele também sofre. E por sofrer ele também vive.
Pro revérbero resta lamentar-se só enquanto nenhuma superfície refletora o convoca pra mais uma seção de terapia.
Apenas esperar. Pois o reflexo vive. E ele sofre.
E você? Já falou com seu reflexo hoje?



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