segunda-feira, 27 de julho de 2015

Os três cavalheiros

A história que você lerá a seguir é verdadeira, mas pode ser que não seja. Se não for, é pura mitologia, mas é verdade. Então acredite de uma vez e poderemos começar.

Três jovens donzelas pela faixa dos quinze anos costumavam sair juntas, apesar de seus pais frequentemente alertá-las quanto ao perigo de saírem pela rua. Nenhuma das três comprava o aviso. Para elas, tudo não passava de uma bobagem, uma punição, tudo por estarem em idade de se casarem. A primeira chamava-se Odélia. Era corajosa e forte. Gostava de provar a sua força e jurou que só se casaria se encontrasse um homem que lhe oferecesse uma vida de aventuras. A segunda, Sirina, era uma típica dondoca. Não gostava de sujar as mãos, apreciava bons vinhos e sonhava com um dia que um cavalheiro rico lhe ofereceria uma vida de mordomias. Já a terceira, Lena, não sonhava com aventuras ou com fortuna. Levava uma vida simples e apreciava as coisas que a vida lhe oferecia. Não pensava em se casar, a menos que encontrasse um amor que realmente valesse a pena.
Apesar de tantas diferenças, as jovens compartilhavam uma amizade enorme e saiam juntas pelos fins de tardes. Certa vez, perto da hora que costumavam voltar, Odélia sugeriu uma manobra diferente e ousada. Queria andar até o lago e banhar-se nas suas águas. Sirina aceitou o desafio, mas Lena receava que a noite caísse logo. Ainda assim, ambas as três foram para o lago. Despiram-se e mergulharam nuas nas águas rasas.

A noite caiu e elas mal percebiam. Eis que então três cavalheiros surgem das sombras e se deparam com as nudistas do lago. A vergonha era tanta e elas se vestiram. Assim que recuperaram sua decência, o primeiro cavalheiro começou a falar a Odélia.

“Oh cara donzela, teu corpo forte e escultural foi feito para navegar comigo pelos sete mares. Venha comigo encontrar aventuras inenarráveis e tesouros dos mais variados e prometo-lhe casamento assim que rumarmos à terra firme.”

Odélia pulou de felicidade e se atirou nos braços do primeiro cavalheiro. O segundo cavalheiro pigarreou e se dirigiu a Sirina.

“Oh cara donzela, teu corpo é de uma majestade e sutileza que nenhum homem jamais viu. Venha comigo e compartilharemos uma vida de muita fartura e muita riqueza em um castelo que tenho por detrás das colinas. Lá, ordeno que preparem tudo para nosso casamento.”

Sirina se encheu de felicidade e pulou nos braços do segundo cavalheiro. O terceiro cavalheiro fez um gesto de silêncio e se dirigiu a Lena.

“Oh cara donzela, teu corpo é o que mais quero neste mundo. És de uma beleza implacável e de um coração muito puro. Venha comigo e lhe oferecerei a vida que quiseres, com ouro e joias que quiseres, quando quiseres. Lhe peço em casamento e lhe prometo que seremos felizes por uma eternidade.”

Lena olhou nos olhos do cavalheiro e não encontrou o que procurava. No lugar, encontrou um olhar amaldiçoado, uma aura de morte que encobria todo o seu entorno. Ela respirou fundo e lhe respondeu:

“Agradeço a gentileza, mas não procuro por nada que se possa oferecer. Minha busca incessante é por um amor e isso não é algo que se ofereça para ninguém. Amor é algo que se rouba, pois ninguém em sã consciência irá escolher amar outro alguém. O amor só acontece ao acaso. Por mais que sua oferta possa tentar a muitas mulheres, o meu amor não é algo que possas ter, ele está guardado para algum outro ladrão.”


O terceiro cavalheiro sumiu em fumaça e os outros dois levaram as almas de Sirina e Odélia. Lena chorou, mas no fundo sabia que os corações que não se abrem para o amor estão destinados a um futuro sombrio no qual somente a morte é uma alternativa saudável. Ninguém vive sem amor.


Nenhum comentário:

Postar um comentário