Cheguei em casa e
joguei a bolsa em algum lugar na sala, enquanto cambaleava até a cozinha.
Peguei algumas garrafas de cerveja em cima da bancada enquanto uma dúzia de
pessoas desconhecidas, acompanhadas de seus melhores amigos, Larissa e Paulo
entravam em meu apartamento.
Larissa ligou o som no
máximo e começou a se balançar ao ritmo de alguma música qualquer. Vi um casal
indo em direção ao meu quarto mas nem não me importei. Tomei um gole de cerveja
e olhando ao redor me dei conta de que aquilo não era exatamente como eu
imaginava ser famosa.
-Pessoal! - Paulo
gritou após subir em uma cadeira, alguém abaixou o som e ele continuou: - Um
brinde à minha melhor amiga e mais nova estrela de Hollywood, Elisa! Sério você
é demais! Obrigado por ser essa amiga maravilhosa e dar essas "festas da
meia-noite"!
Todos bateram palmas e
eu tentei dar um sorriso mais sincero possível, aquilo era estranho de mais.
Mais tarde, quando
todos foram embora, entrei no meu quarto e vi aquele casal na minha cama. Agora
eu com certeza me importo, infelizmente eu estava bêbada de mais pra fazer
alguma coisa e me limitei a simplesmente dar meia volta e ir para o quarto de
hóspedes chorar e rir pelo resto da madrugada.
Minha casa estava em um
estado deplorável e nenhum dos convidados se importou, eles vieram apenas pela
festa e porquê eu disse que ganhei o papel principal do filme. Larissa e Paulo
inclusive.
Só consegui dormir
quando o sol nascera e o sentimento de culpa por agir tão futilmente dando uma
festa para desconhecidos apenas para ganhar a "amizade" deles tinha a
maior parte da culpa, talvez eu deva me tornar como eles.
Acordei com meu
telefone tocando, quando olhei para fora já estava escuro. Dormi o dia todo,
ótimo. Me levanto e atendo o telefone.
-Alô?
-Elisa!- Era minha
irmã, Maya.-Cadê você?
-Ahn?
-Meu Deus, não me diga
que esqueceu!? É a festa surpresa da mamãe!- Disse quando não respondi.
-Droga- Murmurei.-É...
que...
-Você não vem, né? -Fui
interrompida pela minha irmã mais nova. Suspirei.
-Não, não vou.
-Novidade!- Ela disse e
desligou, mas não antes de ouvir o choro da minha mãe.
Aquilo poderia, e
deveria, ter me afetado, mas o que fiz foi ligar pro serviço de quarto e pedir
que limpassem meu apartamento e trouxessem o jantar. Entrei no meu quarto e o
casal não estava mais lá e, em cima da cama, havia um bilhete: "Obrigada
pela festa, Lis. -Catherine" Lis? Quem é essa Catherine pra ficar me
chamando de Lis?! Alguém bateu à porta e me surpreendi com quem se encontrava à
minha frente.
-Oi, gata-ele disse.
Mesmo que eu quisesse, e eu queria muito,
não teria conseguido fechar a porta na cara do meu ex.
-Não vai me deixar entrar? -Ele entrou sem
esperar a resposta e eu fui atrás dele.
-O que você quer,
Henrique?
-Nossa! Você se deu
bem, depois que eu te deixei... - Ele disse enquanto esquadrinhava meu
apartamento.
-Você me deixou?!-
disse, rindo. -Sai agora!
-Calma, amorzinho. A
gente ainda nem conversou direito...
Naquele momento, dei
graças pois o serviço chegou e Henrique saiu sem que eu precisasse falar nada,
mas me olhou como quem dizia "ainda não acabamos".
Aquele era mais um
pedaço do meu fim, eu sabia disso mas não lutei contra. Eu queria aquilo. O
desfecho da riqueza e do poder me deslumbrava desde pequena e meu desejo era
fermentado pela ganância. Ganância essa que me fizera fazer coisas antes
impensáveis para conseguir as minhas vontades, para conseguir esse papel por
exemplo, o meu primeiro, eu precisei de um favor, e tudo que vai volta.
Eu não estava confiante
para o meu teste, a outra garota aparentava ser bem melhor do que eu, eu
precisava de uma vantajem, mesmo que ela fosse injusta. Um homem veio até mim e
me ofereceu ajuda, eu sabia que ele me pediria algo em troca agora ou depois, Vi
a garota ser ameaçada com uma pistola na minha frente, enquanto ela chorava e
soluçava implorando pela vida e prometia não fazer o teste eu me senti feliz,
aquele foi mais um indício do meu fim. Mas eu sabia que a cobrança seria pior
do quê se a arma estivesse apontada pra mim, depois do sucesso ele queria
dinheiro, ele queria sexo, ele queria tudo, talvez eu merecesse, em partes eu
até gostava.
Me afastava cada vez
mais de minha família e aquilo era perfeitamente normal pra mim, minha irmã
nunca deixou de ser um vadia que se achava santa, sempre ao lado de minha mãe,
tosco. Quem me dava a atenção que eu precisava eram meus amigos, eu abracei a
causa alguns dias depois da segunda festa, as drogas eram ótimas.
Quando meu terceiro
filme estourou foi a melhor fase de minha vida, tudo estava bem, o meu cobrador
parara de me visitar após eu fazer minha primeira e última visita a ele, meu
único medo era a morte, eu tinha tudo.
Hoje aqui estou eu, no
que deveria ser o auge da minha vida, escrevendo minhas memórias, um livro que
venderia como qualquer outra biografia de famosos. Eu provavelmente seguiria
minha vida normalmente, mas agora percebo o porquê das celebridades que
produzem autobiografias serem poucas, a maioria deve fugir de seu passado como
eu fugi por tanto tempo. Eu sei disso porquê é impossível chegar onde cheguei
apenas com ambição, eu também já levei rasteiras de outros, isso aqui é um
ringue.
Hoje aqui estou eu
redigindo em meu laptop, no mesmo apartamento que dei minha primeira
"festa da meia noite" o que serão minhas memórias póstumas. Adeus.
Não adeus mundo cruel, isso é ridículo e clichê, Adeus a todos os que leram
essas muitas linhas de futilidade e realidade, saibam que a causa da minha
morte foi não a gravidade ou o asfalto e sim o querer mais e mais, querer sem
parar, querer até o fim, agora eu só quero voltar a sentir.

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