Na mesa em frente a de
Leonardo e Clara, estava um casal um pouco apaixonado demais, decidido a
mostrar o amor deles para o mundo, quase se comendo em meio a uma lanchonete.
- Uma lanchonete? Você
acha mesmo que aqui é o lugar apropriado para discutirmos isso? - Clara
perguntava a Leonardo, um tanto rancorosa.
- Prefere na gravadora
onde seu marido pode ver que está se encontrando comigo ou quer que eu te leve
a minha casa e te ofereça um cafezinho?
- Não exagera. Você
sempre foi grosso assim? - Ele apenas a encarou, com o rosto inexpressivo – Que
seja. Em primeiro lugar, não estamos nos encontrando as escondidas, precisamos
apenas conversar, e não se preocupe, isso não se repetirá.
- Precisamos não, você precisa, porque até onde eu sei, já
falei tudo o que pensava há alguns anos atrás.
- E eu te deixei, bla
bla bla. Já estou cansada de ouvir isso. Te deixei por motivos de integridade.
- Integridade? - o homem ficou boquiaberto – eu não te fazia
nenhum mal.
- Exato. O mal quem
fazia era eu mesma a mim, por estar com você. Não vou ficar falando de passado,
só quero deixar clara as situações em que estamos. Eu estou casada com o seu assistente,
não temos filhos, mas pretendemos ter. Talvez se você aumentasse um pouco o
salário dele, teríamos condições. Contudo, a situação é essa, não quero que
você me persiga como fez da última vez, ou que fique se queixando com ele sobre
isso, Mário é um homem de muito bom coração, por isso, não se pode ser tão ruim
com ele.
- Você está se dando crédito demais, não acha?
- Leonardo já estava cansado daquela velha história. Ele e Clara haviam vivido
um romance dos sonhos, o casal perfeito. Se entendiam pelo olhar, poderiam
dizer qualquer coisa ao outro sem causar problemas, pelo fato de terem tanta
intimidade. Leonardo falava muito da boca pra fora, enquanto Clara fazia o
papel da paciente, fingindo não ouvir certas coisas para logo depois ouvir mil
desculpas do homem. Viajaram juntos, apresentaram-se as famílias, tinham planos
para o futuro, porém, nenhuma ideia fixa, deixavam a vida levar a paixão dos
dois, pois era, claramente, incondicional. Até o momento em que o trabalho
começou a requisitar muito de Leonardo, enquanto Clara ainda estava no começo
de carreira, não entendia muito o quanto aquela dedicação doentia era precisa,
mas Leonardo tinha suas razões, e o romance passou a ficar em segundo plano,
por vezes. Clara se sentia cada dia mais só, distante do homem por quem
cultivara tanto amor e que no momento mal a retribuía. Suas surpresas eram
ressarcidas apenas com sorrisos cansados e não mais noites de amor. Com o tempo
ela sentia que o romance vinha só dela, ao passo que Leonardo era louco por aquela
mulher, contudo, de um jeito mais exausto por conta do trabalho.
- Só quero que o
passado não volte agora, não quando minha vida está começando a dar certo de
verdade. Estou mais feliz do que nunca, não venha destruir isso, de novo –
aquilo foi como uma facada no coração já doente do homem, porém, não cairia
fácil. Para um homem, manter sua dignidade era mais importante que muita coisa.
- O passado não voltará
a te incomodar. Estamos em novos tempos, o presente não é mais como era naquela
época. Temos novas conquistas e novas dificuldades. Contudo, se tratando de um
ambiente de trabalho, onde manter o equilíbrio é essencial, não quero
visitinhas ao escritório do marido, o que tiverem que resolver resolvam em
outro lugar. Minha empresa é um espaço sério, não quero que pequenos conflitos
influenciem no avanço da mesma.
- Como quiser, o quanto
menos eu puder estar presente na sua vida, melhor para mim.
- Digo o mesmo. Posso
pedir a conta?
- A vontade.
Devaneios, era a melhor palavra para
caracterizar o que se passava na cabeça de Leonardo. Voltara para o trabalho
atônito da conversa que tivera com a mulher que fora a maior paixão de sua
vida, que passou a ser a paixão da vida de outra pessoa, isso sem dúvida, era
uma mulher muito atraente por algum motivo que ele não conseguia explicar.
Decidiu se concentrar
nos problemas da empresa, eram realmente importantes e necessitavam serem
resolvidos. Os valores que entravam não batiam com os que saiam. As contas
estavam ficando caras ao modo que a empresa decaía. E era algo tão nítido, como
puderam perceber tão tardiamente? Haviam apenas dois cantores querendo assinar
contrato com a gravadora, um garoto de 19 anos que fazia rap desde os 14 e se
dizia muito talentoso, que seus shows no barzinho em frente a sua casa
arrecadavam um bom dinheiro. E uma cantora aspirante a rockeira, que tinha a
voz de soprano e se inspirava na Lady Gaga, dizia ficar comovida com a
criatividade da mulher. Enquanto a empresa procurava novos talentos do pop,
pois era o que dava mais dinheiro, algo que a mesma necessitava muito. Mesmo
assim, Assinaria contrato com ambos os cantores, mais por falta de novos
talentos do que por esses parecer serem novos talentos. Pegou alguns papéis
para organizar e fazer pagamentos atrasados. Porém, o primeiro que procurou
teve a má sorte de não encontrar com tanta facilidade.
- Mario, venha aqui! -
ordenou ao assistente pelo telefone.
- Já vou, chefe.
- Preciso das páginas
de um contrato e não acho de jeito nenhum, onde está o resto do contrato? - ele
perguntou secamente. Mario sentiu começar a soar frio, nem conhecia o tal
contrato que o chefe procurava, muito menos saberia onde encontrá-lo.
- Desculpe
decepcioná-lo, chefe, mas não conheço esse contrato.
- Como não conhece? -
Leonardo estava furioso – assinamos há menos de uma semana permitindo a
propaganda de um produto nos próximos dois clipes do Luan Santana!
- Não chegou a minha
mesa nenhum contrato como esse. O último que recebi foi o da coca cola.
- Mas esse foi antes
desse e de outro! Onde estão os contratos desse empresa? - Leonardo tentava se
controlar, não poderia ter um surto bem na frente de Mário, se fosse pra parar
no hospital que fosse sozinho, sem espectadores – Volte a sua mesa e procure os
contratos datados depois do mesmo da coca cola. E seja eficiente! - Mário se
retirou apenas fazendo um leve aceno de cabeça.
A tarde passou sem problemas adicionais, o que
seria quase impossível já que ambos passaram o fim do expediente procurando os
outros contratos, que não achavam por nada. Cogitaram, até, a hipótese de um
roubo, mas a segurança do prédio era deveras eficiente pra evitar algo desse
porte.
Quase bateu numa mureta
ao tentar estacionar o carro na garagem de casa. O dia só ia de mal a pior, com
sorte dormiria sem problemas de respiração, por conta daquela doença dos
infernos. O elevador era sempre lerdo demais, o que deixava Leonardo sem
paciência, sua vida já estava atrasada demais para que um elevador quisesse
atrapalhá-la. Todavia, ao sair do elevador, percebeu que problemas maiores iriam
de atrapalhá-lo. A porta de número 405, seu apartamento, estava escancarada.
Alguém esteve ali, mas ele não esperava ninguém em sua casa.
Entrou lentamente no
apartamento e ligou para o porteiro.
- Não vi ninguém
estranho passando pela portaria, senhor Leonardo, apenas as pessoas de sempre.
- Clodovil, entraram no meu apartamento e
deixaram a porta completamente aberta. E só quem tem a chave sou eu. Preciso de
informações mais concretas.
- Posso olhar nas câmeras se elas estiverem
funcionando.
- Se estiverem
funcionando? - ele berrou no bocal.
- Senhor, não é
cu-cu-culpa minha, os técnicos disseram que voltariam a funcionar, mas já
fi-fi-fizeram três consertos só no último mês e elas sempre dão problema. Não
entendo de câmeras de segurança, se entendesse pode ter certeza que já estariam
funcionando. Esses caras só querem tirar dinheiro dos outros e enrolam pra
consertar as coisas. Esses trabalhadores de hoje em dia são tudo assim, não
aprendem as coisas básicas como responsabilidade... - o porteiro continuou o
discurso por mais um tempo, Leonardo fingiu ouvir, apenas concordando com o
homem, até que pôde desligar o interfone e resolver o verdadeiro problema.
Verificou a sala, estava intacta, tudo estava ali, desde as coisas de dentro
dos armários, as das estantes. Foi a seu quarto que de vista parecia estar
intocado. Até que algo fez um estalo em sua cabeça e correu para o outro
quarto, o frigobar estava aberto e seu conteúdo havia desaparecido. A última
coisa que viu foi sua mão caindo, uma dor no coração, e o escuro tomou conta.
Capítulo 2 Capítulo 4
Capítulo 2 Capítulo 4

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