terça-feira, 5 de maio de 2015

Pulso Fatal: Capítulo 3


Na mesa em frente a de Leonardo e Clara, estava um casal um pouco apaixonado demais, decidido a mostrar o amor deles para o mundo, quase se comendo em meio a uma lanchonete.
- Uma lanchonete? Você acha mesmo que aqui é o lugar apropriado para discutirmos isso? - Clara perguntava a Leonardo, um tanto rancorosa.
- Prefere na gravadora onde seu marido pode ver que está se encontrando comigo ou quer que eu te leve a minha casa e te ofereça um cafezinho?
- Não exagera. Você sempre foi grosso assim? - Ele apenas a encarou, com o rosto inexpressivo – Que seja. Em primeiro lugar, não estamos nos encontrando as escondidas, precisamos apenas conversar, e não se preocupe, isso não se repetirá.
- Precisamos  não, você precisa, porque até onde eu sei, já falei tudo o que pensava há alguns anos atrás.
- E eu te deixei, bla bla bla. Já estou cansada de ouvir isso. Te deixei por motivos de integridade.
- Integridade? -  o homem ficou boquiaberto – eu não te fazia nenhum mal.
- Exato. O mal quem fazia era eu mesma a mim, por estar com você. Não vou ficar falando de passado, só quero deixar clara as situações em que estamos. Eu estou casada com o seu assistente, não temos filhos, mas pretendemos ter. Talvez se você aumentasse um pouco o salário dele, teríamos condições. Contudo, a situação é essa, não quero que você me persiga como fez da última vez, ou que fique se queixando com ele sobre isso, Mário é um homem de muito bom coração, por isso, não se pode ser tão ruim com ele.
 - Você está se dando crédito demais, não acha? - Leonardo já estava cansado daquela velha história. Ele e Clara haviam vivido um romance dos sonhos, o casal perfeito. Se entendiam pelo olhar, poderiam dizer qualquer coisa ao outro sem causar problemas, pelo fato de terem tanta intimidade. Leonardo falava muito da boca pra fora, enquanto Clara fazia o papel da paciente, fingindo não ouvir certas coisas para logo depois ouvir mil desculpas do homem. Viajaram juntos, apresentaram-se as famílias, tinham planos para o futuro, porém, nenhuma ideia fixa, deixavam a vida levar a paixão dos dois, pois era, claramente, incondicional. Até o momento em que o trabalho começou a requisitar muito de Leonardo, enquanto Clara ainda estava no começo de carreira, não entendia muito o quanto aquela dedicação doentia era precisa, mas Leonardo tinha suas razões, e o romance passou a ficar em segundo plano, por vezes. Clara se sentia cada dia mais só, distante do homem por quem cultivara tanto amor e que no momento mal a retribuía. Suas surpresas eram ressarcidas apenas com sorrisos cansados e não mais noites de amor. Com o tempo ela sentia que o romance vinha só dela, ao passo que Leonardo era louco por aquela mulher, contudo, de um jeito mais exausto por conta do trabalho.
- Só quero que o passado não volte agora, não quando minha vida está começando a dar certo de verdade. Estou mais feliz do que nunca, não venha destruir isso, de novo – aquilo foi como uma facada no coração já doente do homem, porém, não cairia fácil. Para um homem, manter sua dignidade era mais importante que muita coisa.
- O passado não voltará a te incomodar. Estamos em novos tempos, o presente não é mais como era naquela época. Temos novas conquistas e novas dificuldades. Contudo, se tratando de um ambiente de trabalho, onde manter o equilíbrio é essencial, não quero visitinhas ao escritório do marido, o que tiverem que resolver resolvam em outro lugar. Minha empresa é um espaço sério, não quero que pequenos conflitos influenciem no avanço da mesma.
- Como quiser, o quanto menos eu puder estar presente na sua vida, melhor para mim.
- Digo o mesmo. Posso pedir a conta?
 - A vontade.
  Devaneios, era a melhor palavra para caracterizar o que se passava na cabeça de Leonardo. Voltara para o trabalho atônito da conversa que tivera com a mulher que fora a maior paixão de sua vida, que passou a ser a paixão da vida de outra pessoa, isso sem dúvida, era uma mulher muito atraente por algum motivo que ele não conseguia explicar.  
Decidiu se concentrar nos problemas da empresa, eram realmente importantes e necessitavam serem resolvidos. Os valores que entravam não batiam com os que saiam. As contas estavam ficando caras ao modo que a empresa decaía. E era algo tão nítido, como puderam perceber tão tardiamente? Haviam apenas dois cantores querendo assinar contrato com a gravadora, um garoto de 19 anos que fazia rap desde os 14 e se dizia muito talentoso, que seus shows no barzinho em frente a sua casa arrecadavam um bom dinheiro. E uma cantora aspirante a rockeira, que tinha a voz de soprano e se inspirava na Lady Gaga, dizia ficar comovida com a criatividade da mulher. Enquanto a empresa procurava novos talentos do pop, pois era o que dava mais dinheiro, algo que a mesma necessitava muito. Mesmo assim, Assinaria contrato com ambos os cantores, mais por falta de novos talentos do que por esses parecer serem novos talentos. Pegou alguns papéis para organizar e fazer pagamentos atrasados. Porém, o primeiro que procurou teve a má sorte de não encontrar com tanta facilidade.
- Mario, venha aqui! - ordenou ao assistente pelo telefone.
- Já vou, chefe.
- Preciso das páginas de um contrato e não acho de jeito nenhum, onde está o resto do contrato? - ele perguntou secamente. Mario sentiu começar a soar frio, nem conhecia o tal contrato que o chefe procurava, muito menos saberia onde encontrá-lo.
- Desculpe decepcioná-lo, chefe, mas não conheço esse contrato.
- Como não conhece? - Leonardo estava furioso – assinamos há menos de uma semana permitindo a propaganda de um produto nos próximos dois clipes do Luan Santana!
- Não chegou a minha mesa nenhum contrato como esse. O último que recebi foi o da coca cola.
- Mas esse foi antes desse e de outro! Onde estão os contratos desse empresa? - Leonardo tentava se controlar, não poderia ter um surto bem na frente de Mário, se fosse pra parar no hospital que fosse sozinho, sem espectadores – Volte a sua mesa e procure os contratos datados depois do mesmo da coca cola. E seja eficiente! - Mário se retirou apenas fazendo um leve aceno de cabeça.
 A tarde passou sem problemas adicionais, o que seria quase impossível já que ambos passaram o fim do expediente procurando os outros contratos, que não achavam por nada. Cogitaram, até, a hipótese de um roubo, mas a segurança do prédio era deveras eficiente pra evitar algo desse porte.  
Quase bateu numa mureta ao tentar estacionar o carro na garagem de casa. O dia só ia de mal a pior, com sorte dormiria sem problemas de respiração, por conta daquela doença dos infernos. O elevador era sempre lerdo demais, o que deixava Leonardo sem paciência, sua vida já estava atrasada demais para que um elevador quisesse atrapalhá-la. Todavia, ao sair do elevador, percebeu que problemas maiores iriam de atrapalhá-lo. A porta de número 405, seu apartamento, estava escancarada. Alguém esteve ali, mas ele não esperava ninguém em sua casa.  
Entrou lentamente no apartamento e ligou para o porteiro.
- Não vi ninguém estranho passando pela portaria, senhor Leonardo, apenas as pessoas de sempre.
 - Clodovil, entraram no meu apartamento e deixaram a porta completamente aberta. E só quem tem a chave sou eu. Preciso de informações mais concretas.
 - Posso olhar nas câmeras se elas estiverem funcionando.
- Se estiverem funcionando? - ele berrou no bocal.
- Senhor, não é cu-cu-culpa minha, os técnicos disseram que voltariam a funcionar, mas já fi-fi-fizeram três consertos só no último mês e elas sempre dão problema. Não entendo de câmeras de segurança, se entendesse pode ter certeza que já estariam funcionando. Esses caras só querem tirar dinheiro dos outros e enrolam pra consertar as coisas. Esses trabalhadores de hoje em dia são tudo assim, não aprendem as coisas básicas como responsabilidade... - o porteiro continuou o discurso por mais um tempo, Leonardo fingiu ouvir, apenas concordando com o homem, até que pôde desligar o interfone e resolver o verdadeiro problema. Verificou a sala, estava intacta, tudo estava ali, desde as coisas de dentro dos armários, as das estantes. Foi a seu quarto que de vista parecia estar intocado. Até que algo fez um estalo em sua cabeça e correu para o outro quarto, o frigobar estava aberto e seu conteúdo havia desaparecido. A última coisa que viu foi sua mão caindo, uma dor no coração, e o escuro tomou conta.

Capítulo 2                                                                                                                                Capítulo 4

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